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quarta-feira, 5 de maio de 2021

Devaneios de Pandemia

No início do ano de 2020, o mundo estava passando por um momento diferente, polarizado, vermelhos contra verde e amarelos, arco-íris contra seus contrários, brancos contra pretos, e por incrível que pareça, as cores, que foram criadas para embelezar o mundo, não estavam se misturando mais.

O duelo de opiniões estava em evidência constante, o importante não era o diálogo, mas sim “ganhar”, dar a última palavra, mesmo que recorrendo a um serviço de busca para ter argumento, o que fere qualquer fração de conhecimento buscado através de anos de estudo e qualificação.

Para mim, essa era a grande pandemia que estávamos vivendo, a do ódio!

Mas quis a natureza, que algo pior nos atingisse, mas no meu ponto de vista, para que parássemos e refletíssemos sobre o que estávamos vivendo.

Fomos trancados em casa, para aprender a valorizar, os momentos ao sol, momentos com amigos e familiares.

Talvez como forma de impedir o duelo de opiniões, fomos obrigados a tampar a boca com máscaras, para valorizar o sorriso com os olhos, não há nada mais realizador, nos dias de hoje, do que ver os olhos brilhando, espremidos como forma de alegria, ou ainda marejados, pelos mais diferentes motivos.

Estamos sendo convidados a depois que tudo acabar, mesmo como rastro de tristeza deixado, a entrar em uma outra pandemia, a da Compaixão!

O mundo não aguenta mais ser chato, do ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, ao resultado de um famoso reality show, a mensagem é a mesma: Viva! Esqueça de apontar dedos e levantar bandeiras somente para vencer o duelo de opiniões, perdoe, seja humano, e não humanoide.

Se tudo que aconteceu, até esta data em 2021, não te fez melhorar, aceitar, tolerar, amar, então você está sofrendo com duas pandemias, a do ódio e a da Covid-19.

Troque-as pela da compaixão e em pouco tempo veremos os resultados, mas se esse convite não for aceito, tudo bem, sejamos fortes para aguentar o que virá, até que ao invés de buscar na internet as soluções, tenhamos aprendido na prática, que a saudade de abraçar e de conviver é parte da nossa essência, fomos criados uns para os outros, e não contra os outros.

Sejamos a nova mistura das cores! E tudo ficará bem!


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Cadeira nº. 20:
Patrono: Algacyr Pissini

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Almas entardecidas

Imagem: miro.medium.com

Encontraremos tranquilidade na solidão? Talvez este fosse o único pensamento a impulsionar os neurônios da moça paralisada sobre o banco da praça. Nem mesmo o tempo e suas ameaças, de chuva e ventos fortes a caminho, atraíam a atenção dela. Na mão esquerda um pedaço de bolo embolorado e, na direita, a esperança de reencontrar significados para sua vida solitária. Segurava com força um pequeno totem de argila que ganhara de um amigo, que regressara de Machu Picchu recentemente. Não estava segura o bastante para aceitar que tal objeto pudesse mudar sua sorte, nem mesmo sentia culpa ou vergonha por delegar tal empreendimento às coisas inanimadas. Afinal, animação era uma palavra que Annabelle carecia já há algum tempo, a contar pela escolha do nome dado por sua mãe. Para ela, ainda que sua mãe tivesse todas as razões do mundo para escolher Annabelle, isso tirou dela o direito de se perceber no mundo; de escolher sua representação mais caricata: seu nome que, em verdade, sua escolha predileta sempre foi Cristini.

Notou quando uma pessoa se aproximou e, sem hesitar, sentou a seu lado. Continuou imóvel e com o olhar penetrado no nada, apenas com o pensamento na eventual função social da solidão. Ao lado, o homem finge não perceber a presença de Annabelle. Mas tudo não passa de um jogo. Uma trama. O ar quente e triste do local contribuía para um entardecer bucólico. A poeira vermelha deixada pelos veículos lentamente se dissipa entre plantas e pessoas. Algumas com máscaras e outras, com máscaras eternas.

Annabelle pensava na incoerência da presença. Mesmo ali, próximos, ambos eram desconhecidos e solitários. E por este mesmo motivo, acreditava que conversar sobre lamúrias e desventuras seria ainda pior; potencializaria, ainda mais, uma situação há muito penosa, desgastante e extremamente decadente. Notou um barulho irritante da mão do estranho penetrando um pequeno saco de papel endurecido. Biscoito? Jujubas? O que estaria por encontrar no fundo do saco; no fundo do poço. Justamente no mês de setembro início do mês, na verdade, ar seco, secura constante, temperaturas elevadas, o que motivava aquele estranho a deixar o conforto do lar para alimentar-se em local tão improvável? Tinha em mente que, se perguntasse algo, seria o gatilho para uma aproximação. Isso não. Não naquele momento. Não naquela vida.

Se a solidão, eventualmente, tem uma finalidade, Annabelle queria encontrar a sua. Era segundo pensava, um direito seu ou, quem sabe, uma dádiva. O fato é que estar só tem lá suas vantagens como, por exemplo, imergir em si mesma, protegida aparentemente, de todas as frustrações. Dizem que a pior solidão é aquela do ausentar-se de si mesmo; não encontrar sentido para a própria vida e não ter forças para ressignificar o mundo. Annabelle estava acompanhada, com uma pessoa ao seu lado, porém, não estava em si e estava completamente só.

A cada mastigação, uma repulsa. Seria proposital daquele estranho ou uma estratégia tosca de aproximação. O fato é que Annabelle não conseguia mover um músculo sequer para atravessar a praça. Sair dali o quanto antes. No silêncio misturado com dentes, língua, saliva e restos de alimento, ela percebeu o momento de caridade daquele estranho. Lentamente o saquinho de papel endurecido diminuía a distância até seu corpo. Annabelle vira-se, mais lentamente ainda, com um olhar penetrante e absurdamente morto.

Por alguns segundos aquele estranho parecia desnudar a si mesmo e dizer o quanto a compreendia, pois também desejava romper, abruptamente, com tudo o que o definia; o que o rotulava. Sem palavras ou gestos de qualquer demonstração de afeto, Annabelle introduziu a mão esquerda para tomar o que não era seu por direito; para tomar para si algo oferecido. Eram jujubas de puro açúcar e coloridas artificialmente, tal qual sua vida desbotada naquele entardecer cinzento e quente.

Assim permaneceram por longos minutos, até o instante em que a última guloseima fosse destroçada por dentes robotizados. As bocas totalmente animadas por movimentos quase que, involuntários, seguiam frente ao crepúsculo que, lentamente, sucumbia à épica batalha com as trevas.

O homem levanta-se e inicia seus primeiros passos. Annabelle, imóvel, esboça algumas palavras. Talvez as melhores e mais significativas para aquela demonstração de irmandade. Imersa em pensamentos solitários, Annabelle sabia que o alimento é, em verdade, um fenômeno de aproximação com um poder enorme de igualar as almas; de ignorar posições sociais e relembrar ao ser humano sua marca essencial: a finitude.

— Obrigada.

Sem olhar para trás, o homem desaparece lentamente na poeira. “Lugar de onde veio e para onde vai” – pensou Annabelle.

Antes de sumir completamente, o homem responde:

— Seja livre, Cristini.


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Cadeira nº. 1:
Patrono: Antônio Delgado Martinez

sábado, 28 de setembro de 2019

El Guaviral



Numa das muitas paragens das carretas, a serviço de Dom Thomas, onde nas raras folgas, tomavam tereré e proseavam, arrastando um guarani e o castelhano, ali numa sombra de um pé de árvore, se entendiam gaúchos, paraguaios em meio a cuiadas, num diálogo jopará.

Erva é o que não faltava, nem sede, pois a labuta era dura e o corpo, preto de sol precisava deste verde e santo licor, o caá.

Homens da lida, meio que ariscos, que só queriam mesmo era sobreviver e do suor, bem aproveitado por sinal, não deixando passar um dia sem serviço, foi surgindo uma esperança, que nem no maior sonho se pensou ser assim.

Foi se ajeitando nas fronteiras (se é que elas existem) uma terra, até então com um só dono no papel, que tinha uma essência, uma alma guarani no seu tramar, foi se mudando, se moldando, se pintando, mais pro futuro do que pra guerra.

E das paragens, foi se tornando lugar, lugarejo, depois vila, vilarejo e num dia num lampejo, gente ousou falar: patrimônio, o união, que surgiu da união.

Depois disso, enveredou e foi só querendo crescer, florou como a guavira nos outubros calorentos... Não parou mais. E seu povo? Nem te falo, se for daqui você me entende, se não for, não posso te explicar, precisa viver muito tempo entre nós pra saber o que é o “ser daqui”, o que é Amambay...

Que tradução nenhuma decifra, que só o pertencimento pode desvendar, é ter o por do Sol mais lindo do mundo e chamar a todos, mesmo os poucos desafetos de ch’amigo...

O ser daqui é ter amor por cada palmo, por cada irmão e não se abalar com os temporais, porque eles passam e nunca destruirão as flores, nem o Guaviral, que Deus plantou no coração do Mato Grosso do Sul.


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Cadeira nº. 7:
Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Cátedra vazia

Cerimônia de instalação da ACAL em Amambai.
Parte alta de Amambai, e de longe um prédio imponente se destaca, um lugar aparentemente sisudo. Mas quem diria que dentro de tanto concreto teríamos tanto abstrato: de conhecimento, de pensamento, de racionalidade e compreensão.

Atrás de sua escrivaninha, um sorriso recebe a todos, voz pausada, serena, e quem conheceu sabe que até as broncas eram com discrição. 

Sempre profissional, aplicada, mediadora.

Uma dedicação enorme ao saber, também pudera, uma universidade inteira sob os olhos atentos, que administram com seriedade, como uma mãe zela um filho. Mas como não fazê-lo?

Se cada curso, cada conquista, cada aluno formado tem também o seu sonho embutido. Cada diploma que sai é um pouco de si que doou. Cada cidadão que melhora, que cresce, passou por mãos de fada, mais do que ensino, ensinou a paixão por ensinar, o dom de lecionar. 

Se pudéssemos definir cada pessoa que admiramos com uma só palavra, a que definiria você, Viviane, seria: GRATIDÃO...

Como naquele ditado africano: “Toda vez que uma pessoa sábia se vai é como se uma biblioteca inteira se incendiasse”...


Obrigado por tudo, professora... 

-Cleber A. Arantes-

(Homenagem à Professora Doutora Viviane Scalon Fachin - in memoriam)


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Cadeira nº. 7:

Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A Harmonia entre as famílias

O Salmo 133 é um capítulo da Bíblia, onde Davi o apresenta em forma de poemas para serem cantados em reconhecimento ao poder de Deus. O tema central é a harmonia familiar.

Para que todos pudessem entender o significado e a grandeza da fraternidade e harmonia, o salmista usou dois elementos, de grande valor e bem conhecidos de todos: O Óleo e o Orvalho.

O óleo usado na unção do Sumo sacerdote era extraído das azeitonas que amadureciam no outono. A colheita era feita sacudindo os galhos para que caíssem somente aquelas que estivessem maduras. Depois eram rigorosamente selecionadas, esmagadas e colocadas sobre um cesto para o óleo escorrer livremente, então colocadas em vasilhas de pedra para uma depuração total, extraindo um óleo finíssimo. Este foi o óleo derramado sobre a cabeça de Arão em quantidade suficiente para untar todo seu cabelo, sua barba e suas vestes sacerdotais, significando sua sagração ao serviço santo. Os sacerdotes eram ungidos com óleo como símbolo de benção e missão cumprida. 

O Orvalho Hermom também é símbolo de bênção. É muito interessante saber a importância do Hermom para região. O Hermom é um monte majestoso na fronteira ao norte de Israel, que era conhecido pela precipitação do orvalho refrescante que tornava a região muito produtiva, como um milagre que nasce para beneficiar uma localidade castigada pela seca.

Este foi o meio que Davi usou para demonstram a importância da fraternidade entre os homens e enaltecer a importância da união entre o povo de Deus para que possam viver em harmonia. Usou os dois elementos: o óleo e o orvalho, um por sua qualidade e forma de ser obtido e o outro pela sua importância para região. Esses símbolos são usados em sentido figurado para demonstram a importância da fraternidade entre os homens.

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Ir para a página de Almiro Pinto Sobrinho
Cadeira nº. 12:
Patrono: João de Paula Bueno

sábado, 3 de agosto de 2019

A travessia de nós mesmos

Rogério Fernandes Lemes

Cento e sessenta e cinco anos depois Herman Melville continua entre nós. Sua genial obra, Moby Dick, é atualíssima e tem algo a nos dizer. A aventura é muito mais do que uma narrativa despretensiosa de uma perseguição ao grande cachalote branco. O romance retrata a jornada humana.
Por abordar temas universais, Melville situa-se entre os clássicos da literatura norte-americana. É certo que, por algum tempo, a obra passou despercebida até seu merecido reconhecimento. Destacamos três personagens: Ishmael, o narrador; Ahab, o lunático capitão; e, Queequeg, o canibal. Ishmael parte em busca de aventura nos sete mares narrando as glórias e os infortúnios de uma tripulação que mistifica seu capitão, totalmente tomado pelo ódio e que amarga não apenas a mutilação de seu corpo, mas de sua alma.
Essa obsessão de Ahab está, muito, além de uma simples vingança contra o cachalote branco. O capitão demonstra outra grande fera, da compleição humana, o orgulho. O companheiro de Ishmael é Queequeg, um príncipe canibal de uma tribo polinésia, que é a personificação da barbárie e da selvageria, traços estes, contrastantes com a docilidade e astúcia do pagão.
O poderoso cachalote branco, que mais parece um demônio a um animal, representa a força da natureza que o ser humano luta, incansavelmente, para dominá-la. É no mar que essa luta acontece. A vastidão e a solidão dos sete mares são elementos perfeitos deste cenário que Melville utiliza para demonstrar as batalhas diárias de cada um de nós.
Alguns marinheiros queriam apenas encher seus barris de espermacete e voltar para casa, para suas famílias e viverem tranquilamente suas vidas. Mas a admiração pelo capitão Ahab os levaria para uma armadilha mortal. Mesmo com os barris transbordando do precioso óleo, algo ultrapassa os limites sensatez cegando-os completamente.
Moby Dick é a história de cada ser humano lutando contra seu próprio destino. No mar da vida navegamos por águas desconhecidas; enfrentamos tempestades terríveis; vivemos momentos de total solidão em meio à vastidão do existir e convivemos com a sensação de incompletude, como se matar o grande cachalote fosse a solução para nossa finitude.
Talvez o grande desafio, mais do que sonhar e lançar-se ao mar, seja percebermos o momento de voltarmos, vivos, para casa.

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Cadeira nº. 1:
Patrono: Antônio Delgado Martinez

Este artigo foi traduzido para o espanhol e publicado no México, na edição 73 da revista CantaLetras


O velho sapateiro

Todos os dias ao sair para a labuta diária, cruzam inúmeros personagens pelo caminho do velho sapateiro, pessoas que aos olhos de alguém sem o seu tato passariam despercebidas, como o vendedor de flores, vendendo romantismo e não meras plantas, o mendigo, que mostra não só a miséria nua, mas as mazelas do capitalismo selvagem em combate aos excluídos. E uma figura sui generis que desperta, na sua monótona caminhada, mais atenção ainda. O músico descalço que toca seu violino com maestria, pelas calçadas da urbe ensandecida, que não tem tempo para ouvir Beethoven no vaivém frenético dos transeuntes.
Criticado, muitos se perguntam por que o mesmo não vendia o violino e comprava um par de sapatos, mas se assim o fizer acaba sua arte, o seu trabalho e o seu sonho.
Mas para o sapateiro o dia começa cedo, sua sinfonia é outra, que não o concerto, e sim o conserto. O barulho ensurdecedor das máquinas ligadas nem o perturbam mais. Deve ser por isso que contratou um ajudante surdo, para que não ficasse com moucos ouvidos como ele estava, causado pelo ofício.
Desde cedo, antes mesmo de pensar em sapatos, ou em tê-los, o sapateiro já era adepto da leitura, pois o pai, conhecido por seus versos boêmios sempre lhe incentivou na leitura.
Apesar de “alérgico” ao trabalho árduo, seu progenitor nunca se apartava de um clássico, Dostoievski, Julio Verne, Dante e seu inferno dantesco, alguma coisa de Shakespeare e não raro o via envolto numa profunda análise de Freud.
Insistindo para que o filho lesse, estava tentando mudar seu destino. Ainda aprendeu na infância sobre um tal Marx, que segundo seu pai não era lá muito cristão e que para esse homem, onde há trabalho há exploração. Música sempre as clássicas também. Mestre no piano, o pai lhe inspirou a gostar de uma boa ópera, de sinfonias, música de gente que pensa, segundo ele.
Envolto em seu mundo de solas e couro, de martelo em punho e preguinhos no canto da boca, a imagem do músico descalço não lhe sai do pensamento.
Como pode tocar tão bem, e ele próprio sempre quis ser um violinista.
Por vários dias passava pelo homem, ouvia sua música, bem tocada por sinal, dava-lhe alguns trocados, mas não lhe dirigia a palavra.
Qual seria o real motivo que o fazia pensar na condição daquele homem?
Após analisar por semanas aquela situação, vem a sua mente uma ideia como que um lampejo, e em meio ao expediente sai em desabalada carreira e faz uma proposta ao estranho do violino:
— Dou lhe um par de sapatos se me ensinar a tocar o violino, você aceita? E o homem ainda atônito pela proposta inesperada diz um sonoro: — SIM.
Retirando um sorriso de satisfação do velho sapateiro. No dia seguinte, o homem dirigiu-se à sapataria e começaram a insólita troca, uma alusão ao velho escambo dos portugueses de outrora. A partir de agora o violinista venderia sua arte, mas por uma boa causa, uma proteção para os pés, além de passar adiante o seu talento, dividir com outrem sua nobre arte. 
E assim passaram-se longos dias em que o mendigo, agora bem calçado por sinal, ensinava a sua arte ao sapateiro que por várias horas diárias abandonava seu ofício principal para se dedicar ao aprendizado da música, da arte de tocar.
Uma pena seu nobre ajudante não poder ouvir os ensaios, ou mesmo as desafinações durante o árduo aprendizado.
Como sabia que seu patrão era meio “esquizofrênico”, não deu muita atenção aos concertos matutinos.
Para o violinista estava sendo uma experiência muito diferente, de indigente a professor, além do belo par de sapatos de bom couro, levou uma boa quantia de gratificação e o orgulho de se saber útil, pois sua música lhe possibilitou algo, contrariando os céticos que lhe diziam: música não enche barriga!
O velho sapateiro, enquanto aprendia, ia relembrando seu pai, tão dado ao trato cultural, que apesar de boêmio e alérgico ao batente, deixou um legado de cultura, um misto de saber com ócio improdutivo. Ficaria muito mais orgulhoso em vê-lo músico do que percebê-lo sapateiro, arrumando sapatos novos e velhos, na maioria das vezes com odor não muito agradável. Com toda certeza, bateu a convicção de que o pai preferiria ver seu filho concertando a consertando.
Para ser um profissional do violino pode levar anos, até décadas, mas persistência é algo que o sapateiro conhece bem, domar a dificuldade como amaciar uma sola, ter o aprendizado como desafio.
E a vida tem desígnios nada convencionais, o homem agora não mais seria conhecido velho sapateiro e sim como o sapateiro violinista, o erudito, como sempre sonhou o pai, que sempre dizia nunca ser tarde para realizar um sonho.
Eis a história de um velho sapateiro culto, que apesar dos empecilhos, não se deteve diante eles.

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Cadeira nº. 7:
Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

terça-feira, 30 de julho de 2019

CASSIANO MARCELO


O menininho loiro de Seis aninhos brincava na rua em frente à casa. Não era de perder muito tempo à mesa da cozinha e logo corria porta afora. Tinha compromissos com pardaizinhos vadios e borboletas que disputavam o pouso no guidão da sua bicicletinha; um cãozinho vira-latas e galinhas também participavam das correrias. 
Ria o tempo todo e disparava como uma fatia de Sol nos gramados, nas ruas vermelhas e ribanceiras dali. Voltava para casa com a carinha e as mãozinhas sujas de alegria para descansar no piso fresco da varanda. 
Ninguém se sentia incomodado com a algazarra dos pequenos seres dos quintais com o garotinho. Uma alegria desvairada tomava conta do lugar: a locomotiva da vida abastecia ali e o garotinho era o piloto. 
A família trabalhava pesado no beneficiamento da madeira bruta e se orgulhava: o dia começava às 5 da Manhã na Serraria em frente à casa. Tinham vindo da Região de Cascavel há poucos anos para fincar raízes em Amambai. 
Naquele Dezembro/1975 havia muita madeira para ser puxada e serrada antes da saída de Férias para Camboriú. O escritório, num terreno ao lado da residência, era um entre e sai de gente para os acertos de final de ano. 
Era rotina de um dos motoristas principais da Serraria estacionar o caminhão de carregar toras numa elevação do terreno, em frente ao escritório, para quando fosse sair descer de Ré e o motor não ‘afogar’. 
No fatídico dia 05/12/1975, o garotinho pedalava sua bicicleta nas ribanceiras da rua e foi chamado para casa. Quando vinha subindo pela passagem, o motorista ligou o motor do caminhão, colocando-o em funcionamento em Ré, sem perceber o menininho logo atrás, com a bicicletinha. 
“Ele concordou e começou a subir em direção à casa, com sua inseparável bicicleta. Nesse momento, o nosso motorista, que precisava levar o caminhão para a oficina, começou a manobrar, dando um longo Ré, bem ao lado do Escritório. O motorista ficou estarrecido quando viu logo à frente do caminhão o Cassiano caído com sua bicicleta” – descreveu a mãe. 
O corpinho esmagado não emitiu nenhum som, como um cordeirinho abatido no comecinho da vida: Não teve chance de chorar ou gritar pela mãe, pelo pai... sem uma despedida, o último abraço, o último beijo. Ninguém presenciou o último suspiro, o sopro de vida esvaindo até apagar completamente os olhinhos da cor do Céu. 
Contaram-me (e eu faço questão de deixar registrado) que a tristeza ficou tão espessa e palpável por ali, que era como uma cortina de fumaça que emergia da Serraria e alcançava toda a Cidade, molhando os olhos das pessoas. 
A família, pouco tempo depois, foi embora de Amambai. Para não sofrer ainda mais com as lembranças tão próximas do ocorrido. A mãe, inconsolável, dizia que “todo mundo deveria ter em casa um menininho assim”. 
Eu não estava aqui em 1975, haja vista que cheguei onze anos depois. 
Recentemente, passei por ali: vi as casas da residência e do escritório, construídas de Madeiras de Lei, com as tábuas longitudinais bem lapidadas, ainda íntegras e sem rachaduras. A rua íngreme, a varanda e os quintais parecem entorpecidos, como se ainda à espera do garotinho com a bicicletinha. 
Depois eu me sentei no degrau mais alto do Cruzeiro pomposo, reformado - fincado no alto do morro – bem próximo ao local da tragédia, agora com uma longa fatia de asfalto novinho se estendendo aos seus pés. 
Fiquei apreciando o Crepúsculo e por alguns instantes fechei os olhos. 
E vi uma pequenina mecha de Sol em disparada pelas ladeiras das ruas, nos quintais e entre as árvores, acompanhada por um cortejo de borboletas, galinhas e passarinhos. 
E por um cãozinho barulhento logo atrás.

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Cadeira nº. 16:
Patrono: Coronel Valêncio de Brum

quarta-feira, 28 de março de 2018

Zenóbio, um Senhor Deputado!!!

Imagem: amambaipatrimoniouniao.blogspot.com.br

Não se fazem mais políticos da estirpe de Zenóbio Neves dos Santos, o deputado estadual que melhor representou Amambai na sua história! Nascido na área rural de Amambai, filho de Orestes dos Santos e de Orasilvia Neves dos Santos, Zenóbio chegou à Assembleia Legislativa do então Estado do Mato Grosso depois de ter sido vereador por três mandatos na sua cidade. Chegou, chegando como se diz nos dias atuais, posto que ele e seus pares ficaram responsáveis por escrever a Constituição Estadual, do então nascente estado de Mato Grosso do Sul. Zenóbio foi o relator do capítulo referente ao Poder Judiciário, Presidente da Comissão de Constituição e Justiça, sendo o primeiro Secretário da Mesa Legislativa.

De há muito Amambai não consegue ser protagonista no cenário estadual, por não eleger um representante para a Assembleia Legislativa do Estado. De Naviraí, Onevan de Matos, contemporâneo de Zenóbio, mantém-se na crista da onda desde então. A pequeníssima Eldorado elegeu e reelegeu Mara Caseiro. Lídio Lopes é iguatemiense e embora tenha construído sua carreira política em Campo Grande, onde foi vereador, é da sua cidade natal que lembra na hora das emendas e de levar desenvolvimento social e econômico.

Zenóbio entrou para o ocaso da política, depois de não conseguir se reeleger em 1986. Seu defeito, diziam os detratores, era não ser muito simpático ou carismático e ainda, o fato de ter estado com seguranças quando veio certa feita à Amambai, ajudou a construir essa imagem negativa aos olhos do eleitor que sempre quer o político de bom humor, sorrindo e distribuindo, os famosos “tapinhas” nas costas.

Mas é inegável e até os adversários políticos reconheciam em Zenóbio, a sua tenacidade, capacidade intelectual e a seriedade. Qualidades raras nos políticos de hoje. Zenóbio foi o responsável direto pelo início da construção da Residência do DERSUL - Departamento de Estradas de Rodagens do MS, Regional de Amambai, pela instalação das Agências Regionais da Educação e da Fazenda, que pouco a pouco foram sendo sucateadas ou retiradas da cidade, além de inúmeros projetos de Lei que beneficiaram Amambai e região.

Pós Zenóbio, Amambai elegeu Anilson Rodrigues de Souza, o Prego, que ficou apenas um mandato na Assembleia, 1994 a 1998 e em 2006, quase elegeu Dirceu Lanzarini, que fez cerca de vinte e cinco mil votos, na frente de onze deputados eleitos, mas ficou de fora devido a famosa coligação partidária. 

Em todas as conversas sobre política, entre aqueles que conviveram com Zenóbio Neves dos Santos, aqueles que o conheceram, a voz é uníssona. Tratava-se de um político correto. Em tempos sombrios como o que passamos, de profunda crise moral e ética, que atingiu quase a totalidade dos próceres dos partidos políticos, parece ser utopia, mas precisamos de um novo Zenóbio.

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