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sábado, 28 de setembro de 2019

El Guaviral



Numa das muitas paragens das carretas, a serviço de Dom Thomas, onde nas raras folgas, tomavam tereré e proseavam, arrastando um guarani e o castelhano, ali numa sombra de um pé de árvore, se entendiam gaúchos, paraguaios em meio a cuiadas, num diálogo jopará.

Erva é o que não faltava, nem sede, pois a labuta era dura e o corpo, preto de sol precisava deste verde e santo licor, o caá.

Homens da lida, meio que ariscos, que só queriam mesmo era sobreviver e do suor, bem aproveitado por sinal, não deixando passar um dia sem serviço, foi surgindo uma esperança, que nem no maior sonho se pensou ser assim.

Foi se ajeitando nas fronteiras (se é que elas existem) uma terra, até então com um só dono no papel, que tinha uma essência, uma alma guarani no seu tramar, foi se mudando, se moldando, se pintando, mais pro futuro do que pra guerra.

E das paragens, foi se tornando lugar, lugarejo, depois vila, vilarejo e num dia num lampejo, gente ousou falar: patrimônio, o união, que surgiu da união.

Depois disso, enveredou e foi só querendo crescer, florou como a guavira nos outubros calorentos... Não parou mais. E seu povo? Nem te falo, se for daqui você me entende, se não for, não posso te explicar, precisa viver muito tempo entre nós pra saber o que é o “ser daqui”, o que é Amambay...

Que tradução nenhuma decifra, que só o pertencimento pode desvendar, é ter o por do Sol mais lindo do mundo e chamar a todos, mesmo os poucos desafetos de ch’amigo...

O ser daqui é ter amor por cada palmo, por cada irmão e não se abalar com os temporais, porque eles passam e nunca destruirão as flores, nem o Guaviral, que Deus plantou no coração do Mato Grosso do Sul.


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Cadeira nº. 7:
Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

Amambay


Lugar adorado como nunca se viu
Rios e “corgos” no rincão do Brasil,
arraigada e bela, flor na fronteira:
bela, gentil, sagaz e ordeira.

Veio o progresso, inevitável e lento
Mistura de gente, puro talento
Do barbacuá ao soja, e gado
Trabalho duro, município criado

Da terra querida que me viu nascer
só tenho orgulho e pra agradecer
escrevo um poema com a tinta da paz
arte e trabalho é aqui que se faz

Poderia pertencer a outro torrão
mas a ti escolho por devoção
te quero pra sempre comigo no peito
morrer em teu chão, é sagrado respeito

Campo florido, meu guaviral,
Erva mui rica, caraguatazal
Recanto guarani, eterno portal
Ro rayhú, Amambai: meu chão sem igual...

Parabéns minha Amambai, pelos 71 anos de progresso e beleza!!!


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Cadeira nº. 7:
Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Cátedra vazia

Cerimônia de instalação da ACAL em Amambai.
Parte alta de Amambai, e de longe um prédio imponente se destaca, um lugar aparentemente sisudo. Mas quem diria que dentro de tanto concreto teríamos tanto abstrato: de conhecimento, de pensamento, de racionalidade e compreensão.

Atrás de sua escrivaninha, um sorriso recebe a todos, voz pausada, serena, e quem conheceu sabe que até as broncas eram com discrição. 

Sempre profissional, aplicada, mediadora.

Uma dedicação enorme ao saber, também pudera, uma universidade inteira sob os olhos atentos, que administram com seriedade, como uma mãe zela um filho. Mas como não fazê-lo?

Se cada curso, cada conquista, cada aluno formado tem também o seu sonho embutido. Cada diploma que sai é um pouco de si que doou. Cada cidadão que melhora, que cresce, passou por mãos de fada, mais do que ensino, ensinou a paixão por ensinar, o dom de lecionar. 

Se pudéssemos definir cada pessoa que admiramos com uma só palavra, a que definiria você, Viviane, seria: GRATIDÃO...

Como naquele ditado africano: “Toda vez que uma pessoa sábia se vai é como se uma biblioteca inteira se incendiasse”...


Obrigado por tudo, professora... 

-Cleber A. Arantes-

(Homenagem à Professora Doutora Viviane Scalon Fachin - in memoriam)


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Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Voraz sentimento

Qual poeta não insiste
em engolir as letras,
Deglutir as palavras, eu acho...
Mas quando o amor se vai,
as palavras são raras.
O sentimento voraz,
que o âmago dilacera
a alma então espera
e a inspiração se esvai,
seca como o leito do riacho.
E quando somos devorados
talvez por emoções
a pele se arma em flor
o peito se arde em dor
nada mais se sobrepõe
quer ser em si o anti-amor.

Refém do próprio orgulho
vulto do que foi outrora
lembranças vagas na memória
do que podia ser e não foi
olhar no infinito e ver
que uns dias atrás
como pode ser capaz
eras tua e de ninguém mais.

O poeta se acabou.
O poema esvaziou.
A vontade de viver, parou.
Ser quem se era, passou...
Mas esperança é semente sem regar
que um dia, teima em brotar
e o coração velho de ranço
vê que o antigo descanso,
é um novo amor que nasceu...

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Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues

sábado, 3 de agosto de 2019

O velho sapateiro

Todos os dias ao sair para a labuta diária, cruzam inúmeros personagens pelo caminho do velho sapateiro, pessoas que aos olhos de alguém sem o seu tato passariam despercebidas, como o vendedor de flores, vendendo romantismo e não meras plantas, o mendigo, que mostra não só a miséria nua, mas as mazelas do capitalismo selvagem em combate aos excluídos. E uma figura sui generis que desperta, na sua monótona caminhada, mais atenção ainda. O músico descalço que toca seu violino com maestria, pelas calçadas da urbe ensandecida, que não tem tempo para ouvir Beethoven no vaivém frenético dos transeuntes.
Criticado, muitos se perguntam por que o mesmo não vendia o violino e comprava um par de sapatos, mas se assim o fizer acaba sua arte, o seu trabalho e o seu sonho.
Mas para o sapateiro o dia começa cedo, sua sinfonia é outra, que não o concerto, e sim o conserto. O barulho ensurdecedor das máquinas ligadas nem o perturbam mais. Deve ser por isso que contratou um ajudante surdo, para que não ficasse com moucos ouvidos como ele estava, causado pelo ofício.
Desde cedo, antes mesmo de pensar em sapatos, ou em tê-los, o sapateiro já era adepto da leitura, pois o pai, conhecido por seus versos boêmios sempre lhe incentivou na leitura.
Apesar de “alérgico” ao trabalho árduo, seu progenitor nunca se apartava de um clássico, Dostoievski, Julio Verne, Dante e seu inferno dantesco, alguma coisa de Shakespeare e não raro o via envolto numa profunda análise de Freud.
Insistindo para que o filho lesse, estava tentando mudar seu destino. Ainda aprendeu na infância sobre um tal Marx, que segundo seu pai não era lá muito cristão e que para esse homem, onde há trabalho há exploração. Música sempre as clássicas também. Mestre no piano, o pai lhe inspirou a gostar de uma boa ópera, de sinfonias, música de gente que pensa, segundo ele.
Envolto em seu mundo de solas e couro, de martelo em punho e preguinhos no canto da boca, a imagem do músico descalço não lhe sai do pensamento.
Como pode tocar tão bem, e ele próprio sempre quis ser um violinista.
Por vários dias passava pelo homem, ouvia sua música, bem tocada por sinal, dava-lhe alguns trocados, mas não lhe dirigia a palavra.
Qual seria o real motivo que o fazia pensar na condição daquele homem?
Após analisar por semanas aquela situação, vem a sua mente uma ideia como que um lampejo, e em meio ao expediente sai em desabalada carreira e faz uma proposta ao estranho do violino:
— Dou lhe um par de sapatos se me ensinar a tocar o violino, você aceita? E o homem ainda atônito pela proposta inesperada diz um sonoro: — SIM.
Retirando um sorriso de satisfação do velho sapateiro. No dia seguinte, o homem dirigiu-se à sapataria e começaram a insólita troca, uma alusão ao velho escambo dos portugueses de outrora. A partir de agora o violinista venderia sua arte, mas por uma boa causa, uma proteção para os pés, além de passar adiante o seu talento, dividir com outrem sua nobre arte. 
E assim passaram-se longos dias em que o mendigo, agora bem calçado por sinal, ensinava a sua arte ao sapateiro que por várias horas diárias abandonava seu ofício principal para se dedicar ao aprendizado da música, da arte de tocar.
Uma pena seu nobre ajudante não poder ouvir os ensaios, ou mesmo as desafinações durante o árduo aprendizado.
Como sabia que seu patrão era meio “esquizofrênico”, não deu muita atenção aos concertos matutinos.
Para o violinista estava sendo uma experiência muito diferente, de indigente a professor, além do belo par de sapatos de bom couro, levou uma boa quantia de gratificação e o orgulho de se saber útil, pois sua música lhe possibilitou algo, contrariando os céticos que lhe diziam: música não enche barriga!
O velho sapateiro, enquanto aprendia, ia relembrando seu pai, tão dado ao trato cultural, que apesar de boêmio e alérgico ao batente, deixou um legado de cultura, um misto de saber com ócio improdutivo. Ficaria muito mais orgulhoso em vê-lo músico do que percebê-lo sapateiro, arrumando sapatos novos e velhos, na maioria das vezes com odor não muito agradável. Com toda certeza, bateu a convicção de que o pai preferiria ver seu filho concertando a consertando.
Para ser um profissional do violino pode levar anos, até décadas, mas persistência é algo que o sapateiro conhece bem, domar a dificuldade como amaciar uma sola, ter o aprendizado como desafio.
E a vida tem desígnios nada convencionais, o homem agora não mais seria conhecido velho sapateiro e sim como o sapateiro violinista, o erudito, como sempre sonhou o pai, que sempre dizia nunca ser tarde para realizar um sonho.
Eis a história de um velho sapateiro culto, que apesar dos empecilhos, não se deteve diante eles.

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Patrono: Inocêncio da Silva Rodrigues